Alexandre Cal foi um dos grandes futebolistas que
representaram o Futebol Clube do Porto nos finais da década de 1910 e inícios
da década de 1920.
Em 1921/22, ajudou os Dragões e vencerem o primeiro
Campeonato de Portugal organizado pela União Portuguesa de Futebol, antecessora
da Federação Portuguesa de Futebol.
Mas Alexandre Cal já antes tinha alcançado outros feitos de
grande relevo ao conseguir vencer pela primeira vez o S.L. Benfica em Lisboa no
dia 4 de Abril de 1920. Alguns dias antes, no Campo da Constituição, o F.C.
Porto já tinha vencido outra equipa da Capital por 4-1, o Império Lisboa Clube.
Essas duas vitórias foram, no entanto, branqueadas pelos
jornais da Capital. Situação que revoltou os jogadores portistas com Alexandre
Cal, na condição de capitão-geral, a escrever uma carta no jornal “O Primeiro
de Janeiro”, na edição do dia 17 de Março de 1920:
«Quero frisar que os jogadores do F.C. Porto não só se
portaram de uma maneira brilhante em ambos os desafios, como foram extremamente
correctos para com os seus adversários e para com o publico, não tendo
abandonado o campo de jogo no decorrer da segunda parte do primeiro desafio por
má vontade, mas sim porque o publico se manifestou ruidosamente e invadiu o
campo, não consentindo a continuação do jogo (contra o Império). Eu não viria
de modo algum falar neste assunto se a “Imprensa Desportiva” da Capital pusesse
um pouco de parte o seu facciosismo e fizesse, com imparcialidade e lealdade, o
relato de ambos os desafios. Mas assim não procedeu e os jornais que têm a sua “secção
desportiva” e que pelo menos costumam anunciar aos seus leitores os resultados
dos desafios, deixando desta vez de o fazer, excepto um que falou do resultado
do primeiro desafio, mas que não disse a expressão da verdade. Com efeito, o
F.C. Porto não perdeu com o Império como esse jornal publicou; se tivesse
contado os factos como eles se passaram, deveria ter dito que o jogo entre o
F.C. Porto e o Império não chegou a terminar porque o publico, indignado,
principalmente com a arbitragem, protestou ruidosamente, incitando os jogadores
a abandonarem o campo, sendo este logo invadido pela assistência, não
consentindo que o jogo continuasse e aclamando com entusiasmo os jogadores
portuenses, sendo até o guarda-redes levado ao colo pela multidão e
delirantemente ovacionado. Esta é que é a pura verdade: o F.C. Porto não perdeu
com o Império.
O segundo desafio, jogado contra o Benfica, foi ganho pelo
F.C. Porto por 3-2. Este resultado não veio em nenhum jornal dos que mantém
“secção desportiva”. A razão deste silencio? É simples: Lisboa, em futebol, há
dez anos ou mais que estava habituado a vencer o Porto, conseguindo quase
sempre mais ou menos fáceis vitórias. Este ano, o Porto, quis vencer e venceu,
e para isso trabalhou com vontade, desfazendo assim a ideia que muitos tinham
de ser impossível tão cedo o Norte triunfar do Sul. Eis a razão porque foi tão
pouco falada a vitória dos portuenses.
Quanto aos jornais desportivos, um deles, que por sinal
costuma trazer uma resenha bastante desenvolvida dos bons desafios, limita-se a
fazer uma pequena apreciação que por acaso não condiz nada com o título, e essa
mesma feita em tipo pequeno, como que a ver se passa despercebida.
Inclusivamente, em lugar de dizer, “o F.C. Porto venceu o Benfica”, diz: “team
do Porto vence o Benfica”. Faço esta pequena observação, que poderia parecer
sem importância, mas é para que todos fiquem sabendo que o grupo que foi a
Lisboa é única e exclusivamente de elementos do F.C. Porto e não com alguns do
Oporto Cricket Club, como um jornal desportivo da capital fez constatar, talvez
por más informações…»
fonte: A Bola